Módulo 2 · O comportamento do líder
Talvez você nunca seja um grande orador (e por que isso não importa)
Vou começar dando razão a quem diz que comunicação é dom. Depois eu mostro onde esse argumento quebra.
Por Bruno Cadé, professor e comunicador
Vou fazer uma coisa que professor de comunicação não costuma fazer: começar dando razão a quem discorda de mim.
Existe gente que nasceu com facilidade para falar. Você conhece alguém assim. Chega numa festa e em dez minutos todo mundo está em volta. Sobe num palco sem ensaiar e a plateia ri na hora certa. E existe uma chance real de que você, por mais que treine, nunca fale como essa pessoa.
Pronto. Eu disse. Agora me acompanhe até o fim, porque esse argumento tem um furo, e o furo é exatamente onde a liderança mora.
O argumento contra mim, na versão mais forte
Quem diz "comunicação é dom" costuma ter três bons motivos:
- Temperamento existe. Há pessoas mais extrovertidas e mais introvertidas, e isso não se troca como se troca de roupa.
- Carisma parece não ter fórmula. Você vê, sente, mas não consegue explicar de onde vem.
- Treino tem limite. Nem todo jogador que treina vira craque.
Os três são verdadeiros. Eu não vou fingir que não são.
Agora, a minha história
Eu só falei aos quatro anos. Depois veio a gagueira. Depois a fala rápida, atropelada. Por muitos anos, se você apostasse em quem ali tinha o "dom", não apostaria em mim.
Aos 23, fiz o meu primeiro júri. Venci. Hoje sou criminalista há mais de duas décadas e professor universitário há 17 anos. Eu não ganhei um dom no caminho. Eu ganhei técnica, repetição e hábito.
Onde o argumento quebra
1. Temperamento não é sentença. O introvertido não precisa virar o animador da festa. Ele precisa conseguir dizer, numa reunião, o que pensa, o que espera e o que não aceita. Isso não exige temperamento: exige estrutura. E estrutura se aprende.
2. O carisma que importa no trabalho tem fórmula, sim. Olhar para quem você fala. Abrir pelo que interessa ao outro. Fazer pausa antes da frase importante. Falar de forma que a pessoa entenda na primeira vez. Nada disso é mágico. Tudo isso é treinável.
3. Você não precisa virar craque. Esse é o ponto principal. O líder não é julgado como orador de palco. Ele é julgado pelo que acontece depois que ele fala: a equipe entendeu? O cliente confiou? O conflito diminuiu ou aumentou?
O mundo não precisa que você seja o melhor orador da sala. Precisa que você seja claro, firme e confiável quando a conversa for difícil. E isso não depende de dom.
O que muda quando você aceita isso
Quem espera ter o dom fica parado esperando. Quem aceita que pode nunca ser um grande orador fica livre para ser um bom comunicador, e começa a treinar hoje.
A comparação com o colega carismático deixa de ser desculpa. Vira só uma informação: ele começou com vantagem. Você começa com método.
Para levar: o teste da conversa difícil
Pense na conversa que você está adiando: um feedback, uma cobrança, um "não". Responda por escrito, em uma linha cada:
- O que eu penso sobre isso?
- O que eu espero da outra pessoa?
- O que eu não aceito?
Se você conseguiu escrever as três linhas, você já tem o que dizer. O resto é treino, e treino não depende de dom.
Comecei dando razão a quem diz que comunicação é dom. Termino mantendo a razão que dei: talvez você nunca seja um grande orador. Mas um líder que se comunica bem você pode ser, e isso é o que importa.
“Agir é o que diferencia o orador do líder.”
Bruno Cadé é advogado criminalista há mais de duas décadas, professor universitário há 17 anos, mestre em Direito e especialista em oratória. Criou o Método Cadé – O Escudo e a Espada.