Módulo 1 · O Escudo: a Tribuna
O júri começa antes da primeira palavra
Você ainda nem abriu a boca e a sala já decidiu se vai ouvir você. Dá para treinar isso.
Por Bruno Cadé, professor e comunicador
Você entra na sala. Puxa a cadeira. Arruma os papéis. Pede desculpas pelo atraso de dois minutos. Ainda não disse uma palavra sobre o assunto, e o julgamento já começou.
Ninguém avisa. Ninguém bate o martelo. Mas a sala decide. E, no fim deste texto, eu vou te dizer qual é o único momento em que você pode virar esse jogo.
Todo mundo é jurado
Sou advogado criminalista há mais de duas décadas. No tribunal do júri, sete pessoas comuns decidem a liberdade de alguém. Elas não leram o processo como o juiz leu. Elas olham. Escutam. Sentem. E começam a formar uma opinião antes de qualquer argumento.
Na sua empresa é igual. A diretoria, a equipe, o cliente, o investidor: todos são jurados. E jurado não espera você terminar para começar a julgar.
Isso não é impressão minha. Em 2006, dois pesquisadores da Universidade de Princeton, Janine Willis e Alexander Todorov, mostraram que as pessoas formam um julgamento sobre um rosto (se parece confiável, competente, simpático) em uma fração de segundo. E que mais tempo olhando quase não muda a opinião. Só aumenta a certeza.
Leia de novo: mais tempo não muda a opinião. Só aumenta a certeza.
O que a sala está julgando
Não é a sua roupa cara. Não é o seu cargo no crachá. São três perguntas que todo jurado faz em silêncio:
- Ele está à vontade aqui? Quem chega pedindo desculpas, mexendo no celular e sem saber onde pôr as mãos responde "não".
- Ele sabe para onde está me levando? Quem começa com "bom, então, deixa eu ver por onde começo" responde "não".
- Ele está falando comigo? Quem olha para o papel, para a tela ou para o teto responde "não".
Três "nãos" e você vai passar os próximos vinte minutos tentando recuperar o que perdeu nos primeiros cinco segundos.
O dia em que eu era o pior candidato da sala
Eu só falei aos quatro anos. Depois veio a gagueira. Depois a fala rápida demais, atropelada, de quem tem medo de ser interrompido antes de terminar. Se existisse um concurso para escolher o menino menos provável de virar advogado de júri, eu teria chances.
Aos 23 anos, fiz o meu primeiro júri. E venci. Não porque o medo sumiu. Porque eu aprendi que a primeira impressão não é sorte: é preparo. Dá para treinar a entrada como se treina a fala.
O exercício: os três passos da entrada
Faça isto antes da sua próxima reunião importante. Leva menos de um minuto.
- Chegue antes de chegar. Pare do lado de fora da porta. Respire fundo uma vez, devagar. Solte os ombros. Você não vai entrar correndo atrás do tempo: vai entrar no seu tempo.
- Entre, pare, olhe. Antes de sentar ou de abrir o computador, olhe nos olhos de duas ou três pessoas. Um segundo em cada uma. Sem pressa. Isso diz "estou aqui e sei o que vim fazer".
- Abra pelo destino. A primeira frase não é desculpa nem aquecimento. É para onde você vai levar a sala: "Hoje eu quero sair daqui com uma decisão sobre o orçamento." Pronto. O jurado sabe para onde está indo.
Parece pouco. É pouco. É exatamente por isso que quase ninguém faz.
O único momento em que dá para virar o jogo
Prometi no começo. Aqui está: o único momento em que você controla totalmente a primeira impressão é antes de entrar na sala. Depois que a porta abre, você só administra o que já foi decidido.
O júri começa antes da primeira palavra. A boa notícia é que a preparação também.
Para levar: na próxima reunião, faça só o passo 3. Escreva num papel a frase de destino e diga-a como primeira frase. Depois me conte o que mudou.
“Agir é o que diferencia o orador do líder.”
Bruno Cadé é advogado criminalista há mais de duas décadas, professor universitário há 17 anos, mestre em Direito e especialista em oratória. Criou o Método Cadé – O Escudo e a Espada.