Liderança e comunicação
Do imbecil ao bobo: onde fica o líder?
O homem que controla, o homem que se cala e o que aprendeu a se comunicar.
Por Bruno Cadé, professor e comunicador
Há algum tempo um tema me acompanha, e venho discutindo com alunos, colegas professores e amigos: como o homem passou de imbecil a bobo na sociedade atual.
Antes que você se ofenda, deixe-me explicar as palavras.
O imbecil é o homem que acredita ser dono de quem está ao lado dele. Em casa, decide a roupa, o trabalho e a vida da companheira. No trabalho, decide pelo outro, grita, interrompe e chama isso de pulso firme. Ele usa a palavra como uma espada, só que apontada para quem deveria proteger.
O bobo é o oposto aparente. Não sabe o que pode, não sabe até onde vão os próprios direitos e, o mais grave, não sabe legitimar a própria fala. Diante do conflito, recorre quase sempre à omissão e ao silêncio. Engole, engole, engole, e um dia devolve tudo em ironia, em porta batida, em sabotagem. É a postura passivo-agressiva. O bobo não tem espada nem escudo.
E entre os dois está o homem, que eu poderia chamar também de líder. Ele respeita as leis e os direitos de quem está ao seu redor. Chateia-se, como qualquer pessoa, tem as suas frustrações, mas não determina a conduta dos outros. E, o mais importante, consegue se comunicar ativamente: diz o que pensa, o que espera e o que não aceita, sem agredir e sem sumir.
A cena que me deu esta história
Eu corria os primeiros 3 dos 10 km de uma prova de rua em João Pessoa quando uma cena me chamou a atenção. Uma corredora vestia uma roupa que chamava o olhar de quem passava. Ao lado dela, uma amiga. E, para minha surpresa, o namorado (poderia ser o marido, não tive tempo de analisar a cena toda) corria o tempo todo olhando para o chão.
Ela tem todo o direito de correr como quiser. A questão, para mim, era ele.
O imbecil teria mandado trocar a roupa antes da largada. O bobo corre olhando para o chão: não sabe o que sente, não sabe se pode dizer, e guarda. E o que se guarda, um dia, sai pior. Naquele instante eu soube como contar esta história.
Não é um rótulo, é um pensamento
Ser imbecil, bobo ou homem não é um crachá que se carrega a vida inteira. É um pensamento que a gente permite crescer dentro de si. Na mesma semana, o mesmo homem pode ser o imbecil na reunião, o bobo em casa e o líder diante do cliente.
E o imbecil não escolhe classe social. Ele ocupa todos os cargos e todos os empregos: está no chão de fábrica e está no conselho da empresa. Talvez você já tenha trabalhado com os dois. Talvez, se for honesto, já tenha sido os dois.
O que a tribuna me ensinou
Sou advogado criminalista há mais de duas décadas, e no mundo criminal vi crimes serem criados para conter a ira que acompanha alguns homens. Vi também onde costuma terminar o caminho de quem só sabe controlar e de quem só sabe se calar.
Na tribuna, onde cada palavra pode decidir a liberdade de alguém, aprendi que quem perde o controle emocional perde a causa. Vale para o júri, vale para a reunião de diretoria e vale para a mesa do jantar.
O escudo e a espada
É aqui que o imbecil e o bobo encontram o líder.
O escudo é a comunicação que protege. É não deixar que a raiva, o medo ou uma pessoa manipuladora tirem o seu controle. O imbecil não tem escudo: qualquer contrariedade vira grito. O bobo usa o silêncio como escudo, e o silêncio não protege ninguém, só adia.
A espada é a comunicação que age. É ter postura, voz e argumento para dizer “não concordo”, “isto me incomodou”, “eu preciso disto de você”, na hora certa e do jeito certo. O imbecil usa a espada contra os seus. O bobo deixa a espada na bainha até que ela enferruje.
O líder aprendeu as duas coisas. E aprender é a palavra certa, porque ninguém nasce sabendo. Comunicação é técnica, treino e hábito.
E você?
Se você é homem e se enxergou no imbecil, mesmo que não tenha coragem de admitir, tente não ficar com raiva de mim. Este texto também é para você. Se você se enxergou no bobo, saiba que o silêncio não é paz: é uma conversa que ainda não aconteceu.
E se você é mulher e lidera, você conhece os dois. Já sentou à mesa com eles.
A pergunta que fica é simples: na próxima conversa difícil, em casa ou no trabalho, quem vai falar por você?
“Agir é o que diferencia o orador do líder.”
Bruno Cadé é professor e comunicador, mestre em Direito e especialista em oratória. Este texto nasce do ensaio Do Imbecil ao Bobo, que ele está escrevendo.